Há um desequilíbrio social e humano profundo em curso no Brasil, atravessando simultaneamente a família, o mundo do trabalho e as estruturas que sustentam tanto empresários quanto colaboradores.
O cenário é complexo, multifacetado e exige mais do que análises superficiais ou explicações simplistas. O que está em jogo não é apenas produtividade, legislação trabalhista ou desempenho econômico, mas algo mais profundo: a consciência humana.
A observação parte de um lugar privilegiado ? e doloroso. Atuar dos dois lados do sistema permite enxergar o que normalmente permanece fragmentado.
De um lado, empresários pressionados por burocracias, metas e agora pela iminente aplicação da nova NR-1, que prevê fiscalizações e multas a partir de maio, especialmente no campo da saúde mental.
De outro, colaboradores que, em sua maioria, não compreendem os próprios processos internos, suas emoções, nem os mecanismos psíquicos que moldam suas escolhas e sua realidade.
Ao atender colaboradores, torna-se evidente a ausência de consciência sobre si mesmos. Muitos desconhecem como suas emoções, pensamentos e memórias internas influenciam diretamente suas vidas, relações e trajetórias profissionais. Há um distanciamento do que aqui se chama de ?mecanismo do divino criador? ? entendido não como dogma religioso, mas como a força interna que estrutura a realidade vivida. Essa ignorância não é moral, é estrutural.
Mas a análise não se limita à escuta clínica. A vivência direta como colaboradora em grandes indústrias e empresas escancara um quadro ainda mais brutal.
Aos olhos de quem preserva algum senso de humanidade, o ambiente de trabalho em muitos desses espaços é marcado por desumanização explícita. O que se percebe é que este momento histórico não é simples nem pontual. Ele exige uma leitura ampla, sistêmica e profunda.
De um lado, há o sistema que governa: burocrático, assistencialista e paradoxal. Muitos empresários criticam a falta de comprometimento dos colaboradores, apontando o assistencialismo como causa da acomodação. No entanto, o próprio Estado sustenta esse modo de sobrevivência, mantendo parcelas significativas da população em dependência crônica. O sistema se retroalimenta disso. O custo, porém, não é apenas financeiro ? é psíquico. A consciência humana se desgasta.
Grande parte da força de trabalho é composta por mulheres em situação de vulnerabilidade, muitas com filhos pequenos, que dependem de auxílios governamentais. Esses recursos garantem uma segurança mínima, mas também geram acomodação estrutural: não há incentivo real à profissionalização, ao desenvolvimento de competências ou ao florescimento dos arquétipos individuais que cada pessoa poderia desenvolver ao longo da vida. O crescimento profissional e financeiro estagna, e essas pessoas permanecem ancoradas em um ciclo de sobrevivência.
Enquanto isso, o Estado se endivida, a mão de obra qualificada se torna escassa e o trabalho formal perde atratividade. Quem recebe benefícios não pode assinar carteira, o que fragiliza ainda mais o vínculo com o trabalho e com a responsabilidade coletiva. A mão de obra se precariza.
Não por acaso, cresce a lógica do trabalho informal e do ?freelance?: vai quem quer, quando quer, fica até quando der.
Para quem deseja trabalhar de fato, o cenário também é desolador. Os salários perdem valor a cada dia, o recurso humano é desvalorizado ? tanto pelo empresariado quanto pelo próprio trabalhador, que já se habituou a não se reconhecer como digno. A mão de obra se torna barata, quase escravizada.
Há, paradoxalmente, escassez e excesso ao mesmo tempo: poucos qualificados e muitos que querem trabalhar pouco, ganhar muito e sem preparo, sustentados pelo assistencialismo.
Os profissionais qualificados que restam estão adoecidos. Insatisfeitos consigo mesmos, com os salários, com a família, com a ausência de perspectiva futura e com o medo difuso sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho. Adoecem dentro e fora das empresas. O resultado é um verdadeiro caos, marcado por uma ausência generalizada de consciência.
Essa inconsciência atravessa todos os níveis hierárquicos. Executivos e gestores de alto escalão frequentemente não reconhecem suas próprias emoções e despejam tensões sobre subordinados.
Os colaboradores mais simples, igualmente desconectados de suas emoções, não percebem a empresa como um espaço de desenvolvimento. Não buscam se qualificar para se destacar, não acreditam em si, não acessam sua força interna. Submetem-se por falta de perspectiva.
Todos vivem à margem ? sem visão de futuro.
Do outro lado, o empresariado muitas vezes não reconhece que o colaborador sustenta o lucro da empresa. A exploração se normaliza: longas jornadas, salários irrisórios, transporte precário, alimentação de péssima qualidade. Corpos inflamados por dietas ultraprocessadas, noites mal dormidas, mentes exaustas. Uma vida inteira dedicada a uma empresa em troca de quase nada. O lazer se resume ao consumo vazio, enquanto a saúde física e psíquica se deteriora até o inevitável colapso no sistema público de saúde.
Um exemplo simbólico resume esse cenário: em uma empresa, a praça de alimentação exibia no centro um gramado sintético com uma grande coroa dourada cercada por grades. Ao redor, os funcionários ? os ?enfeitiçados esquecidos? ? consumiam alimentos de baixa qualidade oferecidos pelo ?rei?. Na parede, a frase: ?As pessoas que comem muito são as melhores?. A imagem é clara: o império no centro, os súditos ao redor, aceitando qualquer coisa porque não se reconhecem como merecedores de mais.
O empresário reclama, o país piora, e poucos conseguem identificar a raiz do problema. O sistema não funciona mais. Ele já colapsou ? estamos apenas vivendo seus últimos instantes. A solução não virá de cima para baixo. Não será imposta por leis, normas ou fiscalizações isoladas. A transformação necessária é interna, individual e coletiva.
A nova NR-1 surge justamente porque o que está em crise é o psiquismo humano. A saúde mental tornou-se o eixo do problema. O que raramente se explica é que a psique é estruturada por memórias ? um ?filme interno? que se repete, se atualiza e molda a realidade vivida. Luzes e sombras, experiências passadas, traumas e condicionamentos governam escolhas e comportamentos. A psique está sendo afetada ? e, ao mesmo tempo, afetando tudo ao redor.
Esse fenômeno é planetário, mas assume contornos específicos no Brasil. Manifesta-se nos indivíduos, nas famílias, nas empresas, na política, na religião. Sem uma tomada de consciência profunda, caminhamos para a falência de recursos, de produção e de sentido. O estímulo constante ao consumo sem consciência apenas agrava o quadro.
O sistema é tão sofisticado que muitos não percebem que estão vivendo um jogo. Confundem o personagem que interpretam com quem realmente são. Atuam em uma novela sem perceber que são atores ? e não a história. Quem não desperta para isso corre o risco de permanecer prisioneiro.
O que se vê, por fim, é uma crise de humanidade. Lideranças adoecidas, abusos naturalizados, relações de poder marcadas pela sombra. Pessoas irradiam aquilo que são ? sua informação interna, sua vibração. Empresas também. E o que se irradia hoje é desorganização, medo e inconsciência.